Sobre
Sempre em busca de inspiração
Senhoras e senhores
Deste mundo esquecido
Ouvintes querido
Amantes da arte
Tão pouco valorizado!
Alguns são arretado
Persistente e atrevido.
Essa arte popular
Que mais é uma lida
De historias e lendas
Como é conhecida
Poucos dão valor
Mas eu peço ao “sinô”
À atenção merecida!

História
A cidade de Ibotirama, às margens do Velho Chico, carrega em sua história o traço preponderante de capital das artes, referência regional no tratamento de suas manifestações artísticas e culturais. Parece que de fato as águas do rio São Francisco lavaram o povo dessa terra com uma dose significativa de sensibilidade
artística, haja a vista, os tradicionais festivais de poesia e música que a mais de meio século pulsa à beira do velho rio, os grandes nomes das artes visuais, os atores, atrizes, poetas e cantadores.
A arte cênica ocupa lugar importante em meio a isso tudo. Podemos atribuir a ela, através do teatro, vivências que possibilitaram de forma mais ampla o amadurecimento, o apreço estético, o senso crítico por parte das pessoas que se aventuraram primeiramente nos caminhos artísticos desse território. Em todas as épocas, ao longo dos 66 anos de Ibotirama, um ou mais grupos de teatro acompanharam essa cidade. De 2009 até dos dias de hoje, quem movimenta a cena teatral é o grupo de teatro Mistura.
Com quinze anos de estrada, o Mistura teve sua gênese através das oficinas de teatro do Ponto de Cultura Tarrafa Cultural, espaço que proporcionava a experiência da diversidade artística: dança, música, canto, violão, percussão; fazendo com que a arte-educação desenvolvida no Ponto de Cultura fosse a Tarrafa que pescasse os jovens que navegavam cheios de desejos.
Mesmo encerradas as atividades no ponto de cultura, o grupo se manteve de modo independente, desenvolvendo processos de pesquisas voltadas para as culturas que margeiam o Velho Chico, a literatura de cordel e a cultura popular. Encontrando assim um jeito de fazer teatro à beira da cultura beiradeira. Espetáculos como a “A chegada de Lampião no céu e no inferno” e “Lendas do velho Chico” marcam a trajetória do grupo e os direcionam na construção de um repertório voltado para temas que os atravessam, e que, análogo a isso, permita ao público uma reflexão sensível da realidade.
Tendo suas raízes nas oficinas de teatro de um ponto de cultura, os atores e atrizes que compuseram o primeiro elenco do grupo era majoritariamente composto por adolescentes, muitos deles caminham ainda hoje nas fronteiras do teatro e das artes, outros guardam as lembranças e o impacto do teatro em suas vidas. Ressalta-se nesse momento nomes importantes: keilane Nogueira, Franciele Nunes, Marcus Vinicius, Ruth Náila, Jeandson Miranda, Yasmin Oliveira, Ananias Serranegra, Diego Quinteiro, Edmarcos Satel, Rafaella Tuxá, Gilberto Moraes, Gleza Souza, Júlio Ernesto, Fábio Eugênio, Vania Nogueira. Destacam-se também nomes de pessoas que de diversos modos contribuíram com os trabalhos e a manutenção do grupo: Jurandir Miranda, Joyce Farias, Gerri Cunha, Jarbas Éssi, Josemário Fernandes, Orlamara Andrade, Reizinho, Joílson Catingueiro, Terence Lessa, Reginaldo Pereira, Cleber Eduão e tantos outros que a limitação textual impede de mencionar. Importante ressaltar o nome de Aliomar Pereira, mestre do teatro ibotiramense, que de forma especial se dedicou e impulsionou os membros na condução e permanência do fazer teatral. Lió, como todos chamavam, é pai do teatro de Ibotirama, aquele que conduziu a maioria dos grupos residentes no território da Rica Flor.
Voltando o olhar para todos esses grupos conduzidos pelo Mestre Aliomar e fazendo uma análise de conjuntura, pode-se dizer que as trupes teatrais da cidade de Ibotirama tinham um tempo exato de existência. Os grupos conseguiam manterem-se firmes durante pouco mais de cinco anos, após isso, acabavam por se desestruturar devido à precariedade no que tange às questões de manutenção financeira dos grupos, dificultando a permanência dos atores e atrizes no fazer artístico.
O Mistura consegue inaugurar um novo momento, através da captação de recursos, da busca indissolúvel de valorização do fazer teatral e de seus artistas, consegue capitanear através de editais e outros meios, modos que garantisse aos seus integrantes a permanência no teatro. Ao longo dos anos foram muitos os projetos de pequeno e grande porte encabeçados pelo grupo, fazendo com que atingisse a marca histórica de dez anos de existência na cidade de Ibotirama. A partir desse período, depois de percorrer diversas trincheiras teatrais, o grupo se dedica a um novo jeito de fazer. O grupo passa a ser uma rede colaborativa em processos criativos. Deixa de criar e produzir espetáculos teatrais em grande número de atores e se dedica a espetáculos individualizados, projetos solos, independentes, em parceria com outros artistas, mas mantendo a colaboração dos integrantes do Mistura nos processos de montagem.
Trabalham de modo ativo hoje no grupo os artistas: Gilberto Morais (ator, diretor e produtor teatral), Diego Quinteiro (ator e diretor), Vania Nogueira (atriz e maquiadora) e Ananias Serranegra (ator e dramaturgo).
As artes produzidas por esses homens e mulheres mantêm pulsando as marcas que compuseram o grupo: o apreço a fonte inesgotável de questões que suas raízes possuem; A poética adota por esses artistas compreende as suas raízes como eixo motor; aquela que produz gera energia e impulsiona; um fio condutor
que se alarga, faz movimentar, expandir seus olhares e experimentações sem que se perca as suas identidades, por contrário, sejam incorporadas novas camadas e ramificações, se assim forem necessárias.
Espetáculos marcam esse novo trajeto do grupo. O solo “Carranca: de proa do barco para o palco” com Gilberto Moraes, a performance “os ossos da casa de minha mãe”, com Vania Nogueira, o recital “Casa dos a-voz: meu alpendre de poesia” de Ananias Serranegra e uma série de outras ações e projetos que mantém sólida a relação e o trabalho do grupo. Pensando em repertório, a trupe teatral produziu mais de dez espetáculos e uma camada de projetos que movimentaram a cena da região, além de participação em festivais e mostras. Cabe ressaltar que foi através de Gilberto Morais, ator e diretor do grupo, apoiado por todos os membros, que nasceu e deu os primeiros passos a Rede de Teatro do Velho Chico,
importante mecanismo de organização, agrupamento, diálogo, formação e intercâmbio para os grupos de teatro da macro região.
O grupo de teatro mistura possui forte atuação no teatro da Bahia, com ênfase nas questões e atravessamentos do teatro produzido no interior, contribuindo de
forma direta com seu desenvolvimento. Luta por um teatro cada vez mais forte, potente, engajado em suas questões em que todos possam ter acesso à vivência artística. O grupo que germinou de um ponto de cultura hoje é reconhecido assim também, promovendo novos saberes e fazeres na arte teatral.





